Aviação Militar

Jogo dos 7 erros: Hornet e Super Hornet

Aprenda a diferenciar os dois irmãos da Aviação Naval dos EUA.

Muitas pessoas têm dificuldade em ver as diferenças entre o F/A-18 Hornet e F/A-18 Super Hornet. Alguns acham que a mudança é no número de assentos, uns pensam que só o nome foi mudado em uma modernização, entre outras crenças. Essa matéria tem o objetivo de esclarecer as diferenças mais visíveis entre estes dois caças navais, de uma forma simples e didática.
Mas antes, um pouca da história de cada aeronave.

F/A-18 Hornet – O irmão menor, e mais velho. Na década de 70 a Marinha dos EUA (USN) estava procurando um caça leve e barato que pudesse complementar o grande, pesado e caro Grumman F-14 Tomcat. Essa aeronave também deveria substituir parcialmente e/ou complementar o Grumman A-6 Intruder e o LTV A-7 Corsair II, e substituir por completo o McDonnell Douglas F-4 Phantom II no Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, o USMC (o que deveria ter sido feito pelo Tomcat também, mas não aconteceu por razões de custo de aquisição e custo operacional).

Em resumo, a aeronave deveria ser capaz de realizar as funções de: superioridade aérea, ataque ao solo e ataque naval, escolta, reabastecimento aéreo e reconhecimento. Tudo isso, sendo mais leve e mais barato que o F-14, como fora citado anteriormente. A Marinha já tinha esses requisitos nos anos 60, no âmbito do programa VFAX (Naval Fighter Attack Experimental) quando procurava o substituto para o F-4 Phantom II na própria Marinha. Porém, o VFAX foi substituído pelo programa VFX, que deu origem ao próprio F-14. Mas isso já é outra história.

O VFAX foi reaberto nos anos 70, e a USN recebeu ordens para avaliar os protótipos finalistas do programa Lightweight Fighter (LWF) da Força Aérea (USAF). Tais protótipos eram o YF-16 Fighting Falcon, da General Dynamics, e o YF-17 Cobra, da Northrop. No LWF, o Falcon foi o vencedor, e hoje temos o F-16 voando no mundo todo, com mais de 4600 já produzidas. A Marinha, por outro lado, se interessou mais no Cobra da Northrop, por ser bimotor e ter uma fuselagem mais fácil de ser modificada para as funções de um caça embarcado.

A evolução no design do YF-17, F/A-18 Hornet e F/A-18 Super Hornet. Fotos: US Air Force; Mark Kent; US Navy.

Sendo assim, em 1975 a USN anunciou publicamente que o YF-17 Cobra era o vencedor do VFAX. Esse viria a ser modificado pela Northrop em conjunto com a McDonnell-Douglas, e se tornaria o F-18 Hornet. O F-18, na verdade, teria três variantes: a variante A-18, de ataque ao solo; a F-18, de caça e; a TF-18, que seria a variante biposto (dois lugares) do F-18. Mais tarde, os engenheiros da McDonnell e Northrop puderam unir todas as características do A-18 e F-18 em uma aeronave só, que veio a ser designada F/A-18A; o TF-18 foi redesignado como F/A-18B. O YF-17 foi severamente modificado para se tornar o F/A-18: os trens de pouso e a fuselagem foram bastante reforçados; as asas foram modificadas, assim como as superfícies de comando; a capacidade de combustível foi aumentada.

Alguns conhecimentos adquiridos com o F-15 Eagle foram aplicados na transição de Cobra para Hornet. Finalmente, o primeiro F/A-18A Hornet fez o seu roll-out em 1978. Em 1984 ele entrou em serviço com o USMC e a US Navy. Em 1987 veio o upgrade para o padrão F/A-18C/D. Essa atualização trouxe diversas melhorias, tais como: novo assento ejetor, radar melhorado, jammer, upgrade dos aviônicos e compatibilidade com os mísseis ar-ar AIM-120 AMRAMM, ar-solo AGM-65 Maverick e anti-navio AGM-84 Harpoon. Ao longo da sua vida, o Hornet recebeu ainda várias outras atualizações. Hoje em dia está em serviço nas forças aéreas do Canadá, Espanha, Austrália, Suíça, Kuwait, Finlândia e Malásia. Nos EUA, ainda está presente em alguns poucos esquadrões da Marinha, e serve majoritariamente no Corpo de Fuzileiros Navais. Também é o caça usado pelos Blue Angels, a equipe de demonstração aérea da Marinha. Ultimamente, os Hornets vêm mostrando os sinais dos vários anos de serviço em todo o mundo (especialmente nos EUA, com os Fuzileiros). A fadiga estrutural já vem causando diversos acidentes e problemas para os F/A-18A/B e C/D, chamados de Hornet Legacy, ainda em serviço. Logo logo, os Legacy deverão ser aposentados.

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O YF-18A Hornet, primeiro protótipo do que viria a ser o F/A-18 Hornet. Foto: US Navy.

F/A-18E/F Super Hornet – O irmão mais novo, e maior.
O fim da Guerra Fria trouxe consigo grandes cortes financeiros na área de defesa. A Marinha dos EUA procurava um substituto definitivo para o A-6 Intruder e A-7 Corsair II. Esse substituto seria o A-12 Avenger II, também da McDonnell-Douglas. O A-12 teria se tornado uma aeronave de ataque stealth embarcada, mas foi cancelada depois que o projeto foi ficando cada vez mais caro até um ponto que a Marinha já não tinha mais dinheiro para financia-lo (lembrem-se dos cortes de gastos). A própria McDonnell (que mais tarde veio a ser adquirida pela Boeing) já tinha um projeto para uma grande atualização do F/A-18 Hornet caso o A-12 fosse cancelado. Os cortes no programa do F-14 Tomcat e o cancelamento do projeto NATF (Naval Advanced Tactical Fighter), que deveria dar um caça de 5ª geração à Marinha, foram outros grandes fatores para o nascimento do F/A-18E/F Super Hornet.

Em 1992, a USN encomendou o Super Hornet, e o desenvolvimento teve início. Em 29 de novembro de 1995 o Super Hornet voou pela primeira vez; os testes iniciaram-se em 1996, e em 1997 a produção começou. Finalmente, em 1999, o Super Hornet completou todos os testes, e em entrou em serviço com a Marinha no ano seguinte. Ele foi apelidado de Rhino, para evitar confusões com o seu antecessor nas fonias. Curiosamente, o F-4 Phantom II também recebeu esse apelido. Em 2006, o lendário F-14 Tomcat saiu de serviço com a Marinha dos EUA. Terminava uma era, e começava outra. O F/A-18E/F acabou substituindo também o A-6 Intruder e o Lockheed S-3 Viking nas funções de ataque e reabastecimento em voo.

Um F/A-18F Super Hornet com dez bombas GBU-32 JDAM embarcado no porta aviões USS George H. W. Bush. Foto: Matt Matlage/US Navy.

Em 2003, a US Navy contratou a Boeing para o desenvolvimento do EA-18G Growler, a versão de guerra eletrônica do F/A-18F Super Hornet. O Growler fez seu primeiro voo em agosto de 2006, e entrou em serviço com a USN em 2009. O Growler substituiu o EA-6B Prowler, que era a versão de guerra eletrônica do A-6.

Hoje em dia, os F/A-18E/F Super Hornet são a espinha dorsal da aviação de caça da Marinha dos EUA. No início de 2019 a Boeing recebeu um contrato para a atualização dos Super Hornets para o padrão Block III., que deverá adicionar tanques de combustível conformais, sensor de busca infravermelho (Infrared Search and Track – IRST), novo radar, novos aviônicos, nova suíte de guerra eletrônica e diminuição da seção reta radar (RCS) da aeronave, aumentando a sua furtividade.
Além dos Estados Unidos, o Super Hornet também é operado pela Força Aérea Real Australiana (que também adquiriu o EA-18G). O Kuwait também adquiriu o Rhino, mas não recebeu suas unidades ainda.

As diferenças.
Apesar de serem bastante parecidos, o Hornet e o Super Hornet têm várias diferenças. Aqui, vamos falar das principais diferenças externas entre um caça e outro, pois são as que mais importam na identificação da aeronave.

Hornet e Super Hornet. Foto: Chase Rawley/USN.

Um F/A-18C Hornet e um F/A-18E Super Hornet da Marinha dos EUA. Nessa imagem algumas diferenças já podem ser notadas. Foto: Chase Hawley/US Navy.

Tomadas de ar – É a diferença mais visível. No F/A-18 Hornet as tomadas de ar (ou entradas de ar) dos motores são circulares, e de tamanho menor. No Super Hornet, são maiores e retangulares. Se vistas de frente, as tomadas de ar do Rhino se alinham com as derivas (estabilizadores verticais).
As tomadas de ar levam o ar diretamente aos motores da aeronave.
No Hornet, elas alimentam os motores turbofan General Electric F404-GE-402. Cada motor gera 17700 libras de empuxo em potência máxima.
Já no Super Hornet, as entradas de ar alimentam os General Electric F414-GE-400. Cada um gera 22000 libras de empuxo máximo.

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Vista frontal do F/A-18 Super Hornet e F/A-18 Hornet. Nesse ângulo a diferença das tomadas de ar é bastante perceptível. Foto: Steve Tang; Military Factory.

LERX – LERX é a sigla em inglês para Leading Edge Root Extension. Os LERX são superfícies com um formato meio triangular, que servem para induzir um fluxo de ar acima da asa. Isso aumenta a sustentação em grandes ângulos de ataque e atrasa o estol (perda de sustentação da aeronave). No F/A-18 Hornet, o LERX é bem menor, enquanto que no Rhino, ele é maior e mais triangular.

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Diferença dos LERX (em azul) e Elevons (vermelho) no Hornet e Super Hornet. Fotos: Airwolfhoud; Bem Shelor.

Profundor – De forma simplificada, o profundor é a superfície de controle responsável por fazer a aeronave subir ou descer. O “tipo” de profundor usado no Hornet e Super Hornet é chamado de elevon (elevator + aileron) pois também pode ser usado para girar a aeronave. Visualmente, profundor do Hornet é menor e tem as pontas circulares. O do Super Hornet é maior e tem as pontas retas.
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Comprimento, envergadura e pontos duros –
Uma diferença visual bastante perceptível entre os “dois irmãos” é o tamanho. Falando de comprimento, o Hornet mede 16,8 metros do nariz à cauda, enquanto o Super Hornet mede 18,3 metros. A envergadura do Hornet é de 12,3 metros, enquanto a do Super Hornet é de 13 metros.
Os pontos duros, também chamados de estações de armas, são pontos da asa ou fuselagem específicos para a colocação de cabides de armamentos, tanques, casulos, etc. O Hornet tem 9 pontos duros: 2 nas pontas das asas (trilhos de lançamento), 3 na fuselagem (1 no ventre, 2 nas laterais) e 2 embaixo de cada asa. O Rhino tem 11: 2 nas pontas das asas, 3 na fuselagem e 3 embaixo de cada asa.
Os trilhos de lançamento servem para carregar os mísseis ar-ar guiados por calor AIM-9 Sidewinder. Os pontos das laterais da fuselagem carregam casulos (pods) de guiagem ou mísseis ar-ar AIM-7 Sparrow/AIM-120 AMRAAM; o ponto ventral pode carregar um tanque externo, um pod de guiagem ou uma bomba. Os pontos das asas podem carregar pods, tanques de combustível, bombas e mísseis de todo tipo e casulos de foguete.

Diferenças de tamanho (medida em pés) entre Hornet e Super Hornet.

Antena de Identificação Amigo ou Inimigo – O IFF (Identification Friend or Foe) é um sistema de identificação de aeronaves amigas ou inimigas, que funciona por meio de interrogação de sinais. No F/A-18 Hornet, as antenas desse sistema ficam no nariz, paralelas. São chamadas de Bird Slicer (fatiador de pássaros). Entretanto, não são todos os Hornets que tem essas antenas no nariz. Já no Super Hornet, a antena também fica no nariz, mas tem um formato de caixa.

As antenas de IFF no Hornet e Super Hornet. No primeiro são do tipo “Bird Slicer”; no segundo, a antena tem formato de caixa. Fotos: Preston Webb; Jason Robertson; US Navy.

EA-18G Growler – Por ser modificado para executar as missões de guerra eletrônica, o Growler também tem suas diferenças. As primeiras estão nas pontas das asas: no lugar dos trilhos de lançamento do Sidewinder, estão os casulos de interferência eletrônica AN/ALQ-218. Normalmente, os Growlers carregam embaixo das asas os casulos de interferência AN/ALQ-99. Todo o sistema do canhão rotativo de 20mm M61A2 Vulcan foi retirado e substituído por equipamentos de guerra eletrônica, ou seja, não há mais o orifício do canhão. Com a adição da antena do Conjunto de Contramedidas de Comunicação (Communication Countermeasures Set), o Growler passou a ter duas antenas no dorso (os Super Hornets têm uma).

O Growler, versão de Guerra Eletrônica do F/A-18F Super Hornet. Nas pontas das asas, os casulos de interferência eletrônica AN/ALQ-218. No dorso, a antena de CCS. No nariz, o ponto onde ficava o orifício do canhão Vulcan. Nas asas, os casulos de interferência AN/ALQ-99. Foto: John Linzmeier/US Air Force.

Essencialmente, essas são as diferenças visuais mais relevantes entre o F/A-18 Hornet e o F/A-18 Super Hornet/EA-18G Growler. Existem outras, mas são realmente mínimas, e não chamam tanta atenção. No cockpit, as aeronaves também mudam um pouco. Mas isso é tema para outra matéria.

 

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