Aviação Civil

Análise: Azul não terá disputa fácil por mercado da Ponte Aérea

O Ponte Aérea levantou alguns dados pertinentes para mostrar em que situação a Azul ingressará no mercado mais disputado da aviação brasileira.

Na última segunda-feira (12), a Azul anunciou algo que há muitos anos desejava: o início de suas operações na Ponte Aérea Rio-São Paulo no fim desse mês, após meses de discussões acerca dos slots deixados pela Avianca Brasil em Congonhas.

Resumindo a Ponte Aérea

A Ponte Aérea tem uma relevância grande no mercado aéreo, pois conecta os aeroportos centrais das duas maiores cidades do país. Portanto, é a rota com maior tráfego corporativo, que tende a pagar mais pelas passagens, auferindo às empresas aéreas maior rentabilidade.

Santos Dumont Infraero

Reprodução/Infraero

Desta forma, as companhias buscam ao máximo conquistar, fidelizar, esse perfil de passageiro numa rota tão importante. Na Ponte, a GOL oferece um serviço de bordo mais elaborado gratuitamente, a LATAM oferece wi-fi e a Avianca, enquanto operava, oferecia até uma pequena sobremesa, mesmo com o curto tempo médio de voo, com duração inferior a 50 minutos.

Entretanto, mais do que amenidades, o que mais interessa a esse tipo de passageiro é a flexibilidade. Ou seja, que tenha à sua disposição horários diversos. Ou se um compromisso atrasa e precisa adiar o voo, não tenha que esperar muito até o próximo horário; afinal de contas, como diz o ditado, “time is money”.

E onde entra a Azul nessa equação?

A maior dúvida era: se a Azul já tinha slots em Congonhas, por que já não operava a Ponte Aérea? Isso se deve a uma série de fatores.

Antes de tudo, é importante analisar a concorrência. GOL e LATAM são fortíssimas não apenas na Ponte Aérea, mas também em Congonhas. Juntas, detêm 95% de todos os horários do aeroporto mais importante do Brasil para o público corporativo, portanto podem montar uma malha fortíssima nesse sentido.

CGH

Na última distribuição de slots, no fim de 2014, a Azul ganhou 26 slots diários, o que resulta em 13 pousos e 13 decolagens ao dia. Pode parecer suficiente. Entretanto, Congonhas fica aberto por 16 horas diárias (06h00-23h00), e isso resulta em uma média de menos de uma operação por hora.

Hipoteticamente, se todos esses slots fossem utilizados na Ponte Aérea, a frequência seria demasiadamente baixa para o passageiro corporativo. Como mostra a tabela:

[Para efeito de simplificação da pesquisa, selecionamos as operações da Azul em uma única data, uma segunda-feira, dia 5 de agosto desse ano.]

 

Como pode ser observado, a baixa frequência de voos tornaria estas operações pouco atraentes para o passageiro corporativo. Mais da metade dos voos tem mais de uma hora de espera em relação ao voo anterior.

Como a Azul entrará na Ponte Aérea

Com os 15 novos slots herdados da Avianca Brasil, a Azul conseguiu tornar os seus horários em Congonhas mais atraentes para os clientes que exigem mais flexibilidade dentro do mesmo dia, tornando viável o início das operações na Ponte Aérea. Isso se deu tanto pelo uso de novos slots quanto pela “reciclagem” de alguns distribuídos em 2014.

 

Com isso, a Azul conseguiu reduzir em mais de 30% o número de voos com mais de uma hora de espera em relação ao anterior, se considerarmos os horários hipotéticos das primeiras tabelas.

Que concorrência a Azul enfrentará na Ponte Aérea

Entretanto, mesmo com esses aprimoramentos, a Azul fica consideravelmente atrás de GOL e LATAM, que justamente por deterem um número muito maior de slots, conseguem alocar mais voos na rota e, por consequência, diminuir o tempo entre cada operação, o que é um fator primordial para a atração do público corporativo.

[Para as operações da GOL e LATAM, também selecionamos os horários dos voos operados em 5 de agosto.]

Como a GOL utiliza o 737-800, uma aeronave de capacidade um pouco maior, ela termina por ter menos frequências que a LATAM, que utiliza somente o A319 na Ponte Aérea.

Horários da GOL:

 

LATAM:

 

Como se vê, os voos da Ponte Aérea operados por GOL e LATAM tem frequência altíssima. Somando-se a isso, ainda, há a conectividade que as duas companhias têm em Congonhas, o que ajuda a melhorar a ocupação desses voos. A Azul terá, portanto, uma tarefa árdua pela frente, pois até o momento, além do Rio, apenas Confins terá voos saindo de CGH operados por ela.

A participação de cada companhia na capacidade da Ponte Aérea

Com a entrada da Azul na Ponte Aérea com mais de 15 voos por dia, como ficará a divisão de forças na rota mais movimentada no país?

Para isso, comparamos a oferta de assentos na última semana completa de voos da Ponte sem a Azul (17/08-23/08) com a primeira semana completa de voos com as três companhias (23/09-29/09, após o fim das obras na pista principal do Santos Dumont). A métrica é a oferta total de assentos nos dois sentidos e os dados foram extraídos do sistema SIROS, da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Antes do ingresso da Azul, a GOL tem uma certa vantagem sobre a LATAM devido à maior capacidade de suas aeronaves na rota, embora tenha menos frequências, em média.

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Quando a Azul entrar, terá pouco menos de 20% da oferta na rota, de acordo com os dados do sistema. De toda feita, estará ainda distante das concorrentes. A LATAM, mais próxima, terá cerca do dobro da oferta. Vale ressaltar que, num primeiro momento, a Azul operará apenas com os Embraer, com capacidade para 106 (E190) e 118 (E195) passageiros.

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Em outubro, a expectativa é que a Azul passe a operar a rota com os A320neo, mais eficientes e com um custo menor por assento, de modo a poder competir melhor com GOL e LATAM. Fizemos uma projeção otimista desse último gráfico substituindo todos os voos da Azul pelo A320neo para observarmos como a participação da empresa se comportaria.

Como exposto, a Azul se aproximaria consideravelmente em termos de oferta, mas ainda estaria bem distante de LATAM e GOL.

proj320AD

Conclusão

A Azul não terá uma tarefa fácil pela frente na Ponte Aérea. Sem muitos voos para alimentar a operação a partir de Congonhas – apenas a partir do Santos Dumont – e com menos frequências que LATAM e GOL, resta observarmos como a empresa agirá para conquistar os passageiros na rota mais prestigiada da aviação brasileira.

Os executivos creem que a experiência de voo da Azul, com os snacks e TV ao vivo, atrairá os passageiros, sobrepujando a maior oferta de horários que as congêneres oferecem. Evidentemente, as competidoras não irão aguardar de braços cruzados. Portanto, será muito interessante observar os próximos passos dessa disputa que mal começou.

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4 respostas »

  1. Tudo bem, hoje é absolutamente desigual a concorrência, mas convenhamos, se fosse ao contrário, isso seria diferente? Estou a 23 anos na aviação, e não adianta uma dizer que é “boazinha”, porque uma quer dominar o mercado da outra, a concorrência é assim e mesmo, não tem uma ser boa pra Outra,na verdade uma quer que a outra quebre para dominar o espaço deixado pela que quebrou.. E a vida segue…

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    • Oi, o que tu quis dizer com isso? A ideia não foi fazer nenhum juízo de valor. Não disse em nenhum momento que uma é boazinha e a outra é malvadona

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  2. Bom dia João. A análise foi muito boa e pertinente, a fim de informar a quem não conhece muito o mercado aéreo qual é o tamanho da dominância da Gol e LATAM em CGH. E também qual foi o mérito da ANAC em mudar a regra de atribuição dos slots para privilegiar as companhias entrantes. Temos muitas críticas à ANAC mas este órgão regulador acertou ao considerar a Azul como entrante em CGH. Vamos dizer que ela “corrigiu” o imbróglio jurídico-financeiro-mercadológico que impediu a compra da Avianca pela Azul. E fez isso não porque (ou para) beneficiar a Azul, mas sim para preservar um mínimo de concorrência em CGH. Porém, acho que a questão mais relevante e mais atual é saber se é possível considerar a Azul como substituta da Avianca em CGH. Para isto, acho importante comparar a Azul com a posição de mercado anterior da Avianca-Destino Rio (GIG/SDU). Qual o Market Share da Azul em relação com a parte de mercado anterior da Avianca em CGH, tanto em relação a Destino Rio quanto em relação ao total de partidas/chegadas? Lembrando que, mesmo com o Market Share anterior no mercado mais lucrativo do país, a Avianca não conseguiu se salvar da falência. Abraços!

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